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Licenciatura lidera desistências

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O sonho de se tornar um universitário, muitas vezes, se transforma em frustração e descontentamento, depois que a vaga é conquistada. Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), esta realidade é mais evidente nos cursos de licenciatura em Matemática, Física e História, que lideram as desistências. Em 2009, dos 15,8 mil estudantes da instituição, 700 abandonaram os respectivos cursos. Destes, 128 estavam matriculados nos três cursos de maior desistência, o que corresponde a 18,3% do total. Se comparado com dados de 2008, o número de desistências (97) cresceu 27%.

No curso de Matemática, de acordo com o coordenador Luiz Antônio Benedetti, a evasão chega a 40% do número total de alunos, em torno de 70 por ano. “É um número alto e estamos estudando uma forma de reduzi-lo”, disse.

A estudante Roberta de Souza Santos de 23 anos desistiu do curso de Matemática ainda no primeiro ano e optou pela Pedagogia. “Muitos alunos repetem as disciplinas de base e faz com que a turma tenha número excessivo de pessoas. Isso não me permitia aprender com facilidade”, disse.

Em Física, a desistência também é alta. Só no ano passado, 32 alunos abriram mão da vaga. Na área de Ciências Humanas, o único curso de licenciatura que tem alto índice de abandono é o de História – 47 em 2009.

A licenciatura em Química é a única da área de Ciências Exatas que tem menor evasão. No ano passado, apenas cinco estudantes abandonaram a graduação. Na avaliação da coordenadora do curso Efigênia Amorim, um dos motivos para este cenário são as opções de atividades que o mercado oferece para o químico.

O índice de evasões, segundo o pró-reitor de Graduação da UFU, Waldenor Barros Moraes Filho, tem sido estudado pela instituição. “Não sabemos o motivo das desistências, mas pretendemos realizar um estudo para descobrir”, disse.

Facilidade de acesso pode influenciar

Beto Oliveira

Waldenor Barros acredita que o nível de dificuldade dos conteúdos pode desestimular estudantes

A baixa concorrência para o acesso aos cursos de licenciatura em Matemática, Física e História da UFU — de 1 a 3 candidatos por vaga —, aliada ao nível de dificuldade do conteúdo, no caso dos dois cursos de Exatas, pode estimular as desistências logo nos primeiros anos. “O aluno começa a repetir nas disciplinas e não consegue progredir e isso faz com que ele se interesse por outras áreas”, disse o pró-reitor de Graduação, Waldenor Barros Moraes Filho.

Outra possível explicação para o índice de evasão, segundo o pró-reitor, pode ser os salários pagos pelo mercado para os professores. O piso salarial dos professores do ensino médio no estado, segundo o Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação (Sind-UTE) é de R$ 510, referente a 18 aulas semanais. Com os benefícios chega a R$ 850. Já na rede privada, conforme informou o Sindicato das Escolas Particulares, a remuneração gira em torno de R$ 12, a hora/aula.

Esses valores, segundo o coordenador do curso de Matemática, Luiz Antônio Benedetti, não é atrativo para a maioria dos estudantes. “O curso exige muita dedicação do aluno e, quando ele vê o respaldo do mercado, ele prefere abandonar”, disse.

O bacharelado foi a opção da matemática Gisele Resende Moraes Pereira, de 22 anos, que se formou em 2009. A escolha, segundo ela, teve como base as maiores possibilidades de aprofundar os estudos e também a garantia de um retorno financeiro melhor. “Muita gente opta pela licenciatura por ter medo de não encontrar vaga no mercado. Tenho a intenção de estudar mais e cursar mestrado e doutorado”, disse.

Governo estimula formação adequada

Para estimular a docência em escolas públicas, o governo federal tem lançado projetos de formação de professores não licenciados. Segundo a diretora de ensino da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Camila Coimbra, é comum encontrar professores de Matemática que são graduados em Engenharia, por exemplo. Para erradicar esta prática, o governo criou o Plano Nacional de Formação de Professores (PNFP).

Camila Coimbra, que também é coordenadora do PNFP, ressalta que os professores que não têm licenciatura terão a oportunidade de dar continuidade à formação e obterem mais conhecimento sobre a docência. “Muitos deles são mecânicos e não sabem ao certo interagir em uma sala de aula. A intenção é erradicar o exercício da profissão sem a devida formação”, disse.

O programa, segundo a coordenadora, não tem a intenção de excluir os professores que não têm licenciatura específica na aula ministrada, e sim melhorar a educação no país. “Desta forma, ele passa a ter mais conhecimento sobre a área.”

Faltam professores na rede pública

Um reflexo das desistências nos cursos de licenciatura é o número de vagas ociosas em escolas estaduais de Uberlândia. Segundo levantamento feito pela Superintendência Regional de Ensino (SRE), 470 aulas de Química, Física e Matemática ficaram vagas no início do ano. Deste total, 20 foram remanejadas para professores de outras áreas que estavam excedentes e o restante ficou disponível para designação, ou seja, contratação de novos professores.

A diretora administrativa e financeira da SRE, Maria do Rosário Stadela da Silva, disse que, para ser nomeado em determinada escola, o professor deve ter, no mínimo, 16 aulas e a maioria das escolas tem de 3 a 10 disponíveis. “Dentro do sistema, podemos dizer que faltam professores, principalmente nestas áreas (Exatas), mas no mercado não”, disse. A diretora não soube afirmar se essas vagas já foram ocupadas.

Segundo a diretora da Escola Estadual Parque São Jorge, Waldete Maria de Moraes Barcelos, em 2009, a escola não conseguiu contratar um professor de Matemática para substituir a licença médica de outro. “Lancei cinco editais e ninguém se candidatou. Quando o professor voltou, ele teve de repor as aulas sem ganhar adicional por isso.”

Beto Oliveira

Grazielle Balduíno diz não encontrar oportunidade para lecionar

Jovem está insatisfeita com o mercado

Embora haja falta de professores de Matemática no mercado, a recém-formada no curso pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Grazielle Eloisa Balduíno, de 22 anos, ainda não encontrou aulas para ministrar. Segundo ela, as escolas particulares exigem experiência em sala de aula. “Pensei que já sairia empregada, porque me dediquei muito ao curso. Foi frustrante”, disse.

A professora disse que tem procurado designações em escolas públicas, mas também encontra dificuldades. “Todos os dias, novas designações saem, mas são concorridas e difíceis.” A jovem disse que, caso não consiga vaga para dar aula, prestará concursos para exercer outra profissão. “É uma alternativa até para ganhar um pouco a mais”, afirmou.

Fonte: http://www.correiodeuberlandia.com.br/texto/2010/02/07/43300/licenciatura_lidera_desistencias_.html